sexta-feira, 12 de agosto de 2022

pode que 
seja assim

tremer só 
de pensar

do início
ao fim
me paga 
um lanche

também pode ser 
um cigarro

que deus 
te abençoe

não esqueça 
de colocar 

meu nome 
na oração
seja bem-vinda
lua escondida
não tenha vergonha
de mim

volte ao céu
sem nenhum pretexto
chegue de mansinho
e ponha-se a brilhar

ilumine o pasto
o mar e a cachoeira
traga todos de volta

a esse estado de leveza
pois só inteira
é que você inspira a amar

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Lembra do tempo
Em que vivíamos o presente?
Hoje não mais

Tempo passado se foi
E o futuro ainda não é da gente

sexta-feira, 1 de julho de 2022

CAFETERIA

Parava ali quase todo dia para tomar um café, mas nunca teve coragem de perguntar o nome dela.

QUARTO VAZIO

Era tarde quando o telefone tocou sobre a mesa de cabeceira. 
Tocou, tocou, tocou. 
Devia ser uma chamada importante. 
Por fim, o silêncio se restabeleceu naquele quarto vazio. 

sábado, 11 de junho de 2022

Me deixei ficar

... e isso é tudo". Foram essas as palavras que ele disse antes de fechar a porta. Tentei buscar uma aspirina para aliviar a dor de cabeça que eu sentia de tanto chorar, mas a claridade que entrava pela janela me cegava, ferindo meus olhos como punhais afiados entrando em meus globos oculares. Pensei em chamá-lo outra vez pelo celular, pensei em abrir a porta e seguir pela escada de emergência, pois afinal de contas tê-lo de volta era emergente para mim. Nada disso fiz. Fiquei paralisada no centro daquela sala que juntos escolhemos a decoração, os quadros daquele amigo artista plástico que hoje vive no Tibet, os sofás que tardaram a entregar. Não, nada fiz. Nada para tê-lo de volta naquele momento. Lentamente segui em direção ao quarto, tateei pela parede de forma que pudesse me guiar, bati de leve o joelho esquerdo na quina de um móvel qualquer e essa dor somada com a que eu trazia da sala foram suficientes para me derrubar sobre a cama. Ali fiquei, ali me deixei ficar. Deitada, a face pressionando a superfície suave do lençol, não percebi a ponta do indicador direito entre os lábios. As lágrimas se organizavam em círculos no tecido de algodão. Adormeci.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Microconto: uma grande jornada em poucas palavras

 


O microconto é um gênero literário que se destaca pela síntese de temas cotidianos, em que se faz mais importante sugerir do que mostrar por completo a mensagem que o autor quer passar.

Estabeleceu-se que o microconto tenha surgido no Brasil a partir da publicação do livro Ah, é?, de Dalton Trevisan, em 1994.

Alguns estudiosos classificam os textos dessa variedade literária em três categorias: nanocontos (até 50 caracteres); microcontos (de 50 a 150 toques); e minicontos (até 300 palavras).

Por conta disso, é comumente associado ao minimalismo.

Escritores consagrados também se aventuraram por essa modalidade literária, como Ernest Hemingway, Franz Kafka e Anton Tchekhov.

O microconto mais conhecido é o do guatemalteco Augusto Monterroso: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá", escrito em 1959.

Foi escrito com apenas 44 toques e expressa um sentimento aterrorizante com a possibilidade de o narrador ter acordado e o pesadelo continuado lá.

Escrever microcontos é um excelente exercício para desenvolver a síntese na emissão das mensagens, sejam escritas ou faladas.

A seguir, alguns microcontos de minha autoria, escritos no ano de 2014.

1
Sentou-se no sofá e tomou o controle remoto da mesinha de centro. Pressionou o botão 'start' para assistir a mais um capítulo de sua vida.

2
Quando o inspetor chegou no local do crime, havia apenas uma gota de sangue no abajur e nenhum corpo.

3
Não conseguiu finalizar o parágrafo que lia. Foi interrompido por um pensamento que tomou toda a sua mente: a liberdade está repleta de duas palavras: não sei. Fechou o livro. Vestiu a jaqueta e saiu. A leitura sempre o tirava de si.

4
Fumava tabaco há anos. Todos os dias. Percebeu que se plantasse em casa sairia mais barato. Assim o fez. A moda pegou. A primeira safra foi boa, a segunda melhor. Na terceira foi preso. Investigação da Polícia Federal. Operação “A Cobra Vai Fumar”. Em sua ficha consta: crime contra o sistema financeiro nacional e sonegação de impostos.

5
Só teve dois desgostos na vida. O primeiro foi nascer. O segundo, seguir vivendo.

6
De tanto deixar passarem à sua frente, acabou sendo passado para trás.

7
Procurava um par de olhos que encontrasse os seus. Mas era cedo. Na mão esquerda, a marca da aliança ainda estava lá.

8
Ih. Acho que é memória.

9
Naquela tarde, a notícia veio pelo celular: qro dvorcio dexe ropas c o port vou p ksa d mmae ñ m procure +. Logo anoiteceu.

10
Primeiro certificou-se de que o cartão seria aprovado. Depois desejou, sorridente: "sejam bem-vindos!"

11
Colocou a respiração sob controle e o bulbo raquidiano do sequestrador na mira. O observador informou-o da distância, direção do vento e temperatura. Tinha tudo para ser um tiro certeiro. Aguardava apenas a ordem superior, que nesta ocasião seria dada pelo governador. A decisão final demorou a chegar. Sentiu o braço esquerdo cansado e levemente trêmulo. Mais alguns instantes e a mensagem veio. "Atire!". O disparo acertou em cheio o olho direito - do refém.

12
Deixou a fatia cair no chão. Olhou desesperada para o pai, pressentindo o castigo vindouro. Sentiu as costas da mão dele arder em sua face. O pai então juntou o pedaço de pão e jogou-o para o cachorro, que dormia ao lado da mesa.

13
Com tanta jogada para fazer, foi comer logo a rainha do oponente.

14
Recebeu herança de família. Perto de um milhão de reais advindos da venda de imóveis em região nobre da cidade. Decidiu que iria investir em viagens. Foi pego com trinta quilos de maconha quando retornava ao Brasil pela Ponte da Amizade.

15
Enterrem-me com o meu celular - e não esqueçam do carregador.

16
A nossa conexão acaba de cair e não mais se restabelecerá.


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Deixar a barba crescer é qualidade de vida, porra!


Usar barba nunca foi tão popular como atualmente. O estilo vem ganhando adeptos a cada dia e já não tem aquele mesmo significado de décadas atrás. Lá, deixar a barba crescer era quase sinônimo de sujeira, desleixo e indigência. Algo repudiado pelas regras sociais dominantes, reservando somente aos excluídos o direto de cultivar pelos no rosto.
Mas ainda bem que a época é outra e a mente da galera mudou bastante.
Pois foi pesquisando sobre a barba para escrever um artigo que descobri coisas interessantíssimas sobre ela.
A primeira é que a barba diminui, e muito, os efeitos do sol na face do barbudo. Segundo pesquisa da University of Southern Queensland, da Austrália, os pelos faciais, dependendo do seu tamanho, podem reduzir em até 95% a ação os raios UV na pele do rosto. Um verdadeiro bloqueador solar natural!
Outra: a barba crescida pode diminuir a incidência de problemas respiratórios. Isso mesmo! Resfriados, dores de garganta, e até mesmo a asma, podem ser amenizados pela ação dos pelos do bigode, que muitas vezes barram a entrada de bactérias pelo nariz, impedindo que alcancem as vias respiratórias. Além, claro, de a barba crescida aquecer a região do pescoço, auxiliando na recuperação dessas enfermidades.
Além disso, optar por não fazer a barba é um passo importantíssimo rumo à organização e otimização de seu tempo. Nos minutos em que você estaria em frente ao espelho com uma lâmina de barbear na mão, poderia estar aquecendo uma água para o café, dando comida para o gato, zapeando rapidamente as primeiras notícias do dia, e por aí vai.
Por essas e por outras que me dei conta: ficar barbudo é o primeiro passo para um caminho de libertação. É quase como queimar as cuecas em praça pública. É escolher viver única e exclusivamente para você. É qualidade de vida, porra!

sábado, 28 de novembro de 2015

O mágico


Fonte: http://ultradownloads.com.br/papel-de-parede/Mao-Magica/


Foi na área externa da estação de ônibus, no centro de Florianópolis, que parei para um cigarro. Iniciava a noite e eu havia percorrido até ali a metade do caminho entre o trabalho e minha casa.

Aquele dia estava especialmente agitado. Se não me falha a memória era sexta-feira e a pressa de chegar ao doce lar fazia da maioria marchadores em potencial.

Tudo pronto. Em pé, porque eu também tinha pressa, dei a primeira tragada e a segunda. Na terceira, vi uma moça se aproximar e sentar na mureta que havia do meu lado esquerdo.

Também acendeu um cigarro.

Eu pensava em algo, ou observava um enquadramento para uma fotografia, ou consultava o celular. Não estou certo. Lembro apenas que fui interrompido por um rapaz, que me pediu licença e se apresentou:

- Meu nome é Eurico, sou de Curitiba e mágico. Eu e minha namorada viemos para Floripa passar uns dias, mas a grana acabou e ontem, por azar, a polícia me parou, deu um atraque e rasgou o baralho com o qual eu fazia as minhas mágicas. Disseram que jogo de azar no Brasil é proibido. Então ficamos numa roubada. Se me permite, faço uma mágica com esta moeda e você contribui com o que puder, só pra gente tomar um banho e comer algo ali na rodoviária.

Levei fé no cara.

- Vai lá. – eu disse.

Ele apresentou aquele velho truque de contar uma história gesticulando rápido com o níquel e, de repente, a moeda de 50 centavos some.

Dei uma risada, botei a mão no bolso e entreguei-lhe outra moeda, esta de um real – era o único dinheiro que tinha comigo naquele momento.

A moça do meu lado esquerdo, que também observava o show, tirou uma nota de dois reais e estendeu ao rapaz.

Ele agradeceu e foi saindo. Eu o chamei de volta.

- Opa, mas o truque não está completo. A moeda tem de aparecer.

Ele novamente fez alguns gestos com as mãos e, óbvio, tirou a moeda de trás da própria orelha. Me deu uma piscadinha, olhou para a mulher do meu lado esquerdo e disse:

- Você me dá um cigarro?

Ela tirou o maço da bolsa, sacou um cigarro e o ofereceu ao mágico. Depois, deu-lhe o isqueiro. O rapaz agradeceu, despediu-se e se afastou. Em seguida, a moça fez um comentário sem me olhar, mas dito para que eu ouvisse:

- Daqui a pouco estaremos nós pedindo.

E contraiu a boca.

- É a democratização, na vida real, dos bens de consumo - eu disse.

Dei uma risadinha e apaguei o cigarro. Já era hora do meu ônibus partir.

domingo, 6 de setembro de 2015

domingo, 14 de abril de 2013

CONTROLE

Ela sempre
deixou o controle na minha mão

Também gostava
de deixar uma recomendação por escrito

HBO, Universal, Sony
only

sábado, 6 de abril de 2013



CEDO OU TARDE

de tanto em tanto
me ponho no meu canto
apago a luz
desligo o som
deixo os pensamentos
dialogarem entre si
nem tomo parte disso
só vou ver o estrago que fizeram
dias depois
às vezes é tarde demais
às vezes é cedo
para voltar
à tona

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

À MARGEM DO RIO

eu estive assoberbado nos últimos dias
e tropecei no meu próprio verbo
corri sem destino
falei sem pensar
sentei à margem do rio
e o deixei passar

não

eu quis que o rio parasse
veja só que audácia a minha
eu quis que o rio parasse

nada faz um rio parar
nada faz um rio deixar de ser o que ele é

um rio

queira você ou não
um rio
vai ser sempre
um rio
e nada
mais

eu estive assoberbado nos últimos dias
mas porque
eu ainda não compreendi
o que eu estou fazendo
aqui