07 setembro 2026

Medo que a vida ande para trás
que a liberdade seja só um slogan
que para ter opinião
seja preciso perder as palavras

Medo que a barbárie se perpetue
que a família seja uma só
que o riso de hoje
seja o pranto de alguns anos

Medo que a vida fique difícil de suportar
sem a possibilidade de amar
sem a possibilidade de dizer
que os raios de sol vão demorar a voltar
pode ser que me atrapalhe
para dizer que gosto de ti
um vento bobo à tarde
o mais sincero que eu já vi
Eu choro porque as coisas existem
porque a sinapse acontece
porque um filósofo discorre sobre a paternidade

Eu choro porque uma atriz é homenageada
e porque a fome é obscena

As coisas tem o peso de uma tonelada
e ferem o canto do sabiá numa manhã de sol
tenho a cabeça falhada
isso vai ser até o fim
às vezes não sei como lidar
com essa falta de mim

02 setembro 2026

SONETO DA CONSCIÊNCIA

toda vida que passou e eu nem vi
foi num rastro de cometa que queimou
o céu iluminado que ficou
na infância lá no sul do meu país

hoje sei que vivo um grande impasse
de ter mais passado que futuro pela frente
como se cada minuto que passasse
trouxesse uma angústia permanente

mas viver é arriscar a todo segundo
e deixar que o amanhã fique para amanhã
como esperar o vencimento de um boleto

mas uma coisa que carrego lá no fundo
é não perder o encantamento das manhãs
é viver exatamente o que acredito